Querer ter tudo sob controle pode causar depressão

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Querer ter tudo sob controle pode causar depressão

Sabe aquele lugar em que você se sente seguro, que inspira estabilidade, é linear, controlado e funciona bem?

Esse lugar poderia ser a sua casa, que você a tem como o único ambiente que se sente a vontade, prefere sempre receber as pessoas e dificilmente você sai do seu lar para comer fora ou até mesmo viajar.

Ou poderia ser um relacionamento, que segue ano após ano, no compromisso de estar com alguém, pois esse era o seu propósito, em ter uma união duradoura e tolerável.

Ou ainda, poderia ser o seu trabalho, no qual você mantém um vínculo empregatício, recebe o seu salário, paga as suas contas e tá tudo certo.

Estes exemplos imprimem situações comuns de grande parte das pessoas e, aparentemente, não há nenhum problema neles. Mas aqui cabe uma reflexão: você se vê em situações estáveis que, em simultâneo, não tem uma evolução?

Que até existe um desejo de mudar, de experienciar coisas novas, mas o medo de mexer e o receio são maiores? Verdade seja dita, pra que tentar mudar algo que está funcionando, não é mesmo?

A grande questão é: será que estabelecer condições contínuas de “estabilidade” e “segurança” não é estar na zona de conforto? Pode ser que o funcional na sua vida esteja mascarando o comodismo e a constância de se ter “mais do mesmo”.

Mas, o que significa zona de conforto? Esse lugar pode ser definido como o conjunto de comportamentos e atividades que fazem parte de uma rotina, de um padrão, que estão diretamente ligados a diminuição do estresse e dos possíveis riscos e contratempos existentes no dia a dia.

Assim, a zona de conforto dá uma sensação de segurança e de bem-estar, o que a torna importante e aplicável na vida. Então, qual é o “presente de grego” existente na zona de conforto?

Reflita: se você mantém uma linearidade constante em uma determinada esfera da sua vida, essa linha tende a ser muito rígida, o que pode te causar impedimentos e limitações.

É como se o seu universo fosse regido sempre com os mesmos estímulos não dando espaço para o novo e para a flexibilidade. Imagine uma redoma, uma blindagem que envolve esse universo específico e pouco se muda e se movimenta, não existe mais uma dinâmica criativa, está tudo muito bem estabelecido.

Adentre no exemplo da casa: existe uma pessoa, que constituiu uma família e que juntos moram em uma casa. Eles têm uma rotina pacata, cada um com a sua atividade, extra lar e no decorrer da vida deles, construíram um sistema de perceber a casa como o único lugar de bem-estar.

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Começaram a vivenciar esse ambiente de uma tal forma que a possibilidade de visitar alguém despretensiosamente ou de ficar fora de casa por uma semana nas férias, tornou-se um grande problema.

Não se permitir estar em cenários diferentes, introduziu na mente, que apenas a casa é esse lugar de se sentir a vontade, implicando em uma limitação espacial, e consequentemente relacional.

Aparentemente, está tudo bem gostar de ficar em casa, de se sentir a vontade no seu próprio lar. Mas quando nesse lugar específico foi instituído a zona de conforto, a dificuldade de se permitir estar fora dessa redoma e se adequar a novos ambientes, torna-se uma regra, e antagonicamente, o que era para ser um conforto gera um desconforto.

E daí podem surgir inúmeras situações desagradáveis entre o casal, em que um quer jantar fora de casa e o outro alega que a cozinha que eles têm propicia uma comida divina, que é desnecessário sair.

A percepção de que tudo funciona ali, cega a possibilidade de se ter uma vida fora dali, alguns momentos que sejam, e quando um parceiro quer e o outro não, a DR (discutir a relação) está armada.

Estar na zona de conforto significa prever e ter o controle da situação, incita um certo prazer e o cérebro recebe esta mensagem e ele é atraído pelo bem-estar que a sensação prazerosa provoca, evitando deparar com a dor e a vulnerabilidade.

Contudo, se você limita a estar dentro da mesma, pode criar, num determinado momento da vida, uma sensação de vazio e insatisfação, seja na esfera pessoal ou profissional.

Existe, de fato, uma barreira psicológica que te impede de encarar desafios e melhorar a qualidade de vida. É como se tivesse uma voz alimentando a insegurança e o medo.

Muitas dessas sensações são construídas a partir de crenças que passam de geração para geração, ou por questões culturais e regionais, ou mesmo por algum acontecimento marcante vivenciado em algum momento da vida.

Olhando de perto, aproximando dessas questões, torna-se mais claro compreender o que te faz estar dentro da zona de conforto.

Veja outro exemplo: uma pessoa fez faculdade, tem um emprego na área de formação, é uma profissional competente, assídua, correta. Ela sente que tem potencial para crescer na empresa, ou desenvolver um novo projeto, e esse desejo requer uma mudança.

Ela precisa estabelecer novas relações, a logística vai ter uma nova realidade, os horários podem oscilar e isso pode implicar na vida pessoal.

Questões triviais de toda e qualquer mudança, podem gerar um nível alto de ansiedade e a resposta, dentro da zona de conforto, é dar continuidade na dinâmica profissional já estabelecida.

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Esse “comichão” de se reinventar, de fazer algo diferente, fica adormecido quando não é manifestado, e pode, ao longo do tempo, desencadear frustração, angústia, depressão.

E a questão não é, necessariamente, mudar drasticamente, fazer algo totalmente diferente do que se é feito. Muitas das vezes são mudanças pequenas, palpáveis.

No caso do exemplo acima, esse profissional tinha potencial de crescer dentro da sua própria área de trabalho, mas, por medo do novo, prefere ficar exercendo a mesma função, mesmo sentindo um certo comichão.

No atual contexto mundial, da pandemia do coronavírus, quantas e quantas pessoas se viram diante do dilema de ter que trabalhar em algo novo, ter que sair da zona de conforto.

Essa realidade desestruturou a vida de muitos profissionais, MAS, abriu caminho para inúmeras pessoas se descobrirem atuando em novas funções laborais e perceberem o quanto essa mudança foi benéfica.

É claro que para se reinventar não é preciso esperar um vírus que acometa todo o globo terrestre. Não mesmo! Parte do princípio de se ter uma percepção de si e do contexto em que se vive.

De atuar naquilo que faz sentido e que mudanças são bem-vindas e saudáveis. Mesmo porque a vida não funciona como se fosse um joystick, um controle que cabe na palma da mão e que possui os comandos necessários para passar de fase.

É importante ter um porto seguro, uma base, uma segurança. É gostoso estar na zona de conforto, pois ela te abraça, te envolve, dificilmente prega peças. Por outro lado, quando você se vê mergulhado nessa posição de conforto, ela enrijece, limita, adoece.

Esse adoecimento não é diretamente físico, ele também é emocional, pois mascara o que poderia melhorar se houvesse um movimento. Sair dessa zona confortável é encarar o imprevisível, o que pode ser libertador e potente, gerando mudanças e novas perspectivas.

A natureza é uma vitrine que pode ser usada para elucidar essa transição. Pare e pense na transformação da lagarta para a borboleta. Primeiro, existe a lagarta e ela está acostumada a ser lagarta.

Mas existe uma força maior, uma força da natureza que a leva a produzir fios de seda e, em um determinado estágio, ela se vê totalmente envolvida por um casulo.

Fica um tempo, reclusa, praticamente inerte até perceber que seu corpo tomou uma forma e pode romper essa barreira. De repente, surge um novo ser, uma borboleta, capaz de voar, ter novas habilidades e diferentes visões de mundo.

Esse processo de transformação pode acontecer, caso você se permita conectar com essa força, com esse desejo e se dedicar a mudança.

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Fazendo uma analogia com a transformação da lagarta para a borboleta, a zona de conforto poderia estar no momento do casulo: um lugar relativamente controlado, sem muita interferência externa, em que a lagarta sabe que ela é uma lagarta, e está tudo bem.

Se, porventura, ela decidisse ficar dentro do casulo, ela não saberia da transformação que estaria por vir, da possibilidade dela ter asas e ser uma borboleta.

É basicamente assim que acontece, permanecer na zona de conforto te priva de crescer, de ser mais confiante e criativo, de ter uma visão de mundo mais ampla, com novas perspectivas.

Imagine você em um relacionamento amoroso saudável, que existe troca, cumplicidade e que aparentemente tudo está indo bem. Com o passar do tempo, algumas demandas e prioridades vão mudando e se um decide permanecer na mesma dinâmica que existia no começo da relação e o outro decide incorporar novos hábitos, haverá aí um dilema.

Ficar em um lugar que um dia já funcionou e não dar abertura para o novo, é permanecer na zona de conforto.

Mesmo porque existe um elemento importantíssimo que está querendo mudar, que é o seu parceiro, e para que uma relação siga saudável, é importante ter um acordo.

Muitos relacionamentos se desgastam por entrarem nesse ciclo rígido de poucas mudanças e mesmos hábitos. A rotina pode levar a uma insatisfação, a falta de admiração, comunicação e até mesmo ao fim do relacionamento.

E, às vezes, uma simples mudança pode trazer e renovar a energia do casal, na melhoria da convivência do dia a dia.

Por mais difícil que pareça ser, torna-se saudável sair da zona de conforto, seja ela estabelecida em qualquer esfera: pessoal, profissional, social e afins. A vida é tão grandiosa, tão rica e, ao mesmo tempo, tão vulnerável, que incorporar sentido faz toda a diferença.

Os hábitos são essenciais, mas perceba se eles estão te cristalizando e estagnando. O novo é injetar vida nos pulmões, é ver novas cores, é sentir novos gostos, é reconhecer quem está ao seu lado, é trabalhar naquilo que você se satisfaz e que faz a diferença.

Fica a reflexão: você quer ser a lagarta, o casulo ou a borboleta? Lembre-se que para chegar a ter asas é preciso se permitir mudar. É um processo, uma transição, e requer coragem e atitude.

A zona de conforto, por vezes, pode ser desconfortável, entende?!

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