O coronavírus pode aproximar as pessoas, ser mais humanos

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O coronavírus pode aproximar as pessoas, ser mais humanos

Diante das facetas que a modernidade e o mundo capitalista introduziram e permitiram que o homem pudesse transportar ao seu cotidiano com habitualidade, o mundo conformou-se em uma lógica individualizada, em que as relações de consumo se tornaram mais densas, constantes e rápidas.

O egocentrismo pautado na individualidade do ser humano pela necessidade de autoafirmação, na verdade, se baseia na aceitação proveniente da comunidade capitalista, que a todo tempo incide em mecanismos para modificar os padrões ou torná-los cada vez mais inalcançáveis aos olhos e feições humanas, reflete na constante insatisfação humana com a sua própria natureza.

As relações se tornaram parâmetros sob a égide de Bauman, ou seja, baseadas na liquidez do mundo e das relações afetivas, nada “é”, tudo “está”, e o estar das coisas se dissipa em questão de segundos, pois a vontade e sentimentos humanos se modificam em conjunto com a rapidez da mídia e das tecnologias.

Estes fatores nos permitem refletir sobre a atuação humana nas pautas humanitárias. Não há consciência sobre a origem dos alimentos que são consumidos, muito menos sobre as roupas e calçados que são utilizados, desde que estejam em acordo com o considerado “padrão” capitalista, ainda que para a utilização destes produtos, inúmeras pessoas em condições de atividades análogas à escravidão contemporânea, estejam trabalhando incansavelmente.

O ser humano, para ser introduzido neste mundo repleto de pressupostos para a aceitação, é permeado por questões que transcendem o seu próprio eu, e suas características, e desejos podem se desdobrar de acordo com as necessidades pessoais para se enquadrar a determinados padrões.

Entretanto, o egoísmo humano cada vez mais fomentado pelas relações de consumo, entra em embates quando situações humanitárias alarmam a sobrevivência humana em âmbito mundial.

O alastramento do coronavírus diagnosticado pela primeira vez na China, em Wuhan, permite compreender a rapidez capitalista quando os altos índices de contágio e a rápida interação entre as pessoas, foram fatores determinantes para que a doença logo se transformasse em Pandemia.

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Em dois meses, novos epicentros da doença foram formados em outros países e milhares de pessoas morreram e estão morrendo. Para os grupos de risco, a doença apresenta índices altos de fatalidade e o mundo enfrenta situações de calamidade que a modernidade ainda não havia enfrentado.

Logo, o distanciamento e isolamento social se tornaram as maiores pautas, todas as pessoas deveriam permanecer em suas casas, trabalhar de dentro de suas casas e estabelecer as relações sociais somente via internet, afirmar e reafirmar as suas relações de consumo por meio de compras online.

Mas as consequências alarmantes geradas pela pandemia, reforçam, na verdade, a necessidade de contextos mais humanitários, reflexões mais ativas sobre os grupos que sem dúvidas são e serão os mais afetados pelos efeitos biológicos, econômicos e sociais gerados em meio aos tempos de crise.

Crianças de áreas periféricas, grupos de refugiados, pessoas abaixo da linha da pobreza, grupos de risco sem acesso à saúde pública, são apenas exemplos das populações vulneráveis que mais sofrerão com as consequências da pandemia. Em meio aos temores individuais, existe o aspecto coletivo de emergência social.

Falar sobre solidariedade em tempos modernos e de crise, por meio das redes sociais líquidas, pode ser um grande aliado para ajudas humanitárias. Entretanto, também pode ser um mecanismo superficial de autopromoção que, na verdade, não produz efeitos positivos para a parcela da população que está sendo afetada de forma feroz pelo vírus.

A solidariedade como expressão do sentimento de ajuda humanitária, em meio às adversidades, é um dos fatores importantes para que a humanidade possa sair com menos perdas diante de um cenário de emergência internacional.

É possível perceber que o mundo padece de atitudes simples e empáticas que podem salvar a vida de outrem, quando é necessário que o Secretário Geral da ONU, António Gutierres, vá pedir em âmbito nacional que as pessoas sejam mais solidárias ao enfrentar a crise pandêmica.

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Sentimentos e razões humanas que se desdobram entre pessoas que estão dando tudo de si e arriscando suas vidas em prol da humanidade, e outras que permanecem dentro de suas bolhas egocêntricas sem observar as catástrofes que estão acontecendo ao redor.

Até que os efeitos se torne m tão próximos, que não seja mais possível negligenciar a situação que ocorre. Mas nem sempre isso é o suficiente para abandonar os hábitos egoístas em meio ao caos.

Talvez, o motivo para a decadência da humanidade, seja a própria atuação humana em meio às relações sociais e ambientais. O homem permanece enjaulado nas considerações de Thomas Hobbes, ao considerar que o homem é o lobo de si mesmo.

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